A vingança do dia
Sábado, Outubro 04, 2003
Um dos motivos pelo qual eu não gosto de estudar em casa (além da geladeira e da tv, é claro) é que os quartos ficam de frente para a pracinha da Cirrose. E como o codinome já indica, a pracinha é rodeada de barzinhos que são mestres em fazer barulho e muita zoeira. Consecutivamente, sempre tem aquele sujeitinho desafinado (do tipo "Voz & Violão") que perturba nas noites de sexta e sábado e por isso eu tenho me refugiado na biblioteca de Direito da UFG, que pelomenos na teoria, deveria ser um recinto de silêncio e introspecção. E não é que esse sujeitinho deu para animar uma confraternização do pessoal da faculdade logo hoje em que eu estava lá? Daí, assim que ouvi aquele "agrado auricular", a primeira coisa que pensei foi: "Nãaaaao!! Isso é perseguição!!". E era, sem sombra de dúvida, o mesmo carinha: aquela voz de cachorro rouco era inconfundível! Antes de começar a xingar e reclamar do barulho no andar de cima, eu me lembrei que existe vida fora do cursinho (e esses sobreviventes não têm aula nos sábados e fazem festa nas sextas-feiras), então me pus no meu devido lugar e procurei me divertir com a situação. O humor no caso, consistia na contradição. Nos barzinhos da praça da Cirrose, ele parecia aquele personagem de "Os Normais", o amigo do Rui, que toca, canta e atende o celular ao mesmo tempo por causa do "contagiante entusiasmo da platéia". Mas, como dessa vez o pessoal era mais jovem e até então, imagino que nenhum bêbado tinha vomitado, nunca ouvi esse sujeitinho cantar mais empolgado, e como eu temia, dando preferência ao repertório internacional! E foi muito "If ai cuuuuuuuuld, then ai wuuuuuuuld" a noite inteira e o pessoal na biblioteca não conseguia se conter e ria também! Ele não era bem o caso do sutil desafinado, ele era o " desafinado de banheiro", como disse uma colega minha, e eu me senti vingada naquele momento. Então ele parecia, agora, com o Michael J. Fox no filme "De volta para o Futuro II", quando o Martin dava um show tocando Bob Dylan, com direito a perninha para cima e joelhos ao chão no final; mas dentro dos limites da ironia, é claro, ao som das estudantes gritando (de verdade!) "Lindo, Tesão, Bonito e Gostosão", e isso era de morrer de rir!... Eu até entendo o quanto é difícil cantar e tocar ao mesmo tempo pois já vivi algumas situações parecidas nos Saraus quando eu era criança, em que tinha de tocar bandolim e cantar "Lá Vem o Pato" ao mesmo tempo.. mas isso já é outra história que os meninos já conhecem, hehe...
por GEÓRGIA MARIA DE CARVALHO PERES - 00:43

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